quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Vergílio Ferreira nasceu faz hoje 100 anos

Em Melo, com os irmãos César e Judite e a tia Lalinha
Era o começo do verão, talvez, minha mãe e a mãe dela subiam a rampa para a missa de domingo. E um momento, minha mãe hesitou com uma inesperada tontura. Parou, apoiou-se a minha avó:
– Não sei o que tenho, minha mãe.
Ela varou-a de iluminação e alarme:
– Não me digas! Não me digas que já arranjaste outra desgraça.
A “desgraça” era eu.

Vergílio Ferreira in Alegria Breve

Nasci em Melo, na serra da Estrela, a meia distância entre a Guarda e Viseu. E a sensibilidade que tenho aprendi-a ali. Mas é possível que essa sensibilidade fosse não um efeito mas uma causa, que eu tenha criado a aldeia e não ela a mim. De todo o modo houve um ponto em que os dois elementos se cruzaram e é-me assim difícil separar um do outro. Fiz-me com esse ambiente mas não sei se através dele e ele foi assim o lugar ideal para me entender com a emoção nos meus livros. Neve, desolação do Inverno e o augúrio dos ventos e a presença física e metafísica da montanha que de um extremo da aldeia se vê desdobrar-se em toda a sua massa, e o erguer por detrás dela a Lua de Verão são entre outros os motivos que se me fixaram largo tempo para saber ser sensível e entender-me a mim próprio.

Vergílio Ferreira in Conta-Corrente

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