Penalva foi um dos nomes que Vergílio Ferreira criou para a verdadeira cidade da Guarda. Amanhã, sábado, a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço leva os leitores e curiosos num percurso literário pela Guarda, conduzido por Anabela Matias. Encerra-se deste modo a programação das comemorações, daquela biblioteca, em torno do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. O percurso começa às 11 da manhã.
– Fiz o liceu. Fizemos a Festa de Despedida.
– Imagina.
– Fiz a letra para o hino.
– A letra?
– Pois. Não saiu mal.
– Versos?
– Pois. Às vezes faço. O Substantivo Epiceno, que era o professor de português, uma vez leu. Não achou mal.
Como é que?
– Posso dizer-te a primeira estrofe, sei-a de cor. Sei a letra toda de cor. Posso-te dizer a
como é que? «Adeus cidade» – começou a dizer sem lhe pedir. Como é que pode existir a arte na tua imbecilidade? Mesmo a arte imbecil? «Adeus cidade com que saudade vamos partir.» Tinha parado na estrada, eu olhava nele um bicho de uma espécie já extinta. «De ti levamos nos corações as mais sentidas recordações para o porvir» – e subitamente, que vontade por dentro de chorar. Olho-o ainda, estamos parados um diante do outro, incompreensíveis absurdos, na tarde obscura imóvel.
Para Sempre
Vergílio Ferreira
Bertrand, 9ª edição, 1994
– Fiz o liceu. Fizemos a Festa de Despedida.
– Imagina.
– Fiz a letra para o hino.
– A letra?
– Pois. Não saiu mal.
– Versos?
– Pois. Às vezes faço. O Substantivo Epiceno, que era o professor de português, uma vez leu. Não achou mal.
Como é que?
– Posso dizer-te a primeira estrofe, sei-a de cor. Sei a letra toda de cor. Posso-te dizer a
como é que? «Adeus cidade» – começou a dizer sem lhe pedir. Como é que pode existir a arte na tua imbecilidade? Mesmo a arte imbecil? «Adeus cidade com que saudade vamos partir.» Tinha parado na estrada, eu olhava nele um bicho de uma espécie já extinta. «De ti levamos nos corações as mais sentidas recordações para o porvir» – e subitamente, que vontade por dentro de chorar. Olho-o ainda, estamos parados um diante do outro, incompreensíveis absurdos, na tarde obscura imóvel.
Para Sempre
Vergílio Ferreira
Bertrand, 9ª edição, 1994

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