sábado, 30 de janeiro de 2016

Vergílio para todos

foto retirada de vergilioferreira.pt
Os manuscritos de Vergílio Ferreira que estavam «no fundo dos Serviços de Censura e também da PIDE/DGS» vão estar disponíveis para consulta, anunciou o director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo e da Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. No dia das comemorações do centenário do nascimento em Gouveia, Silvestre Lacerda disse, em declarações à Agência Lusa, que será disponibilizado um conjunto de manuscritos relacionados com Vergílio Ferreira, que estavam integrados nos arquivos da polícia política da ditadura. Alguns dos documentos incluem «a parte relativa à censura do livro que conhecemos como 'Manhã Submersa', mas que não era esse o título original, era 'Cavalo Degolado'.» Ficarão também acessíveis «os apontamentos em que Vergílio Ferreira justifica à Censura a importância da obra e consegue convencê-los a deixarem publicar essa mesma obra».

Puxei a mão mais à frente. Havia silêncio absoluto. Alguém passou junto às janelas, assobiando. O Sol dizia adeus, devagar, desde o cimo do céu. Estava tudo a postos. P. Lino atirou para o ombro a aba da romeira para ter o braço livre e tomar balanço. Com uma certeza linear, ergueu alto a palmatória e torcendo um pouco o tronco, no esforço, descarregou o primeiro golpe. Senti a mão subitamente destruída com um ardor vivo na concha e nos dedos. Mas logo uma dor começou a inchar-me até ao ombro. Antes porém que eu a sentisse toda, outra vez a palmatória me queimou a mão. Os tectos altos ecoavam a estalaria. Parecia-me que a dor recomeçava agora de mais fundo, quando outra vez a férula a calou.
- A outra mão.
Não fechei os olhos, e, empedrado de uma força desconhecida, também não chorei. Estendi a outra mão.

Manhã Submersa
Vergílio Ferreira
Bertrand, 11ª edição, 1983

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