Na véspera do centenário do nascimento de Vergílio Ferreira, o Teatro de Carnide, em Lisboa, estreia uma adaptação do romance «Aparição». Encenação e adaptação de Sofia Ângelo e com os actores Tiago Costa , Luís Simões, Camila do Ó, Paulo André, Matias Pinto, Cristiana Carvalho, Beatriz Teixeira , Nuno Barata Veras e Ana Cristina Fernandes. Produção do Teatro de Carnide.
- Pobre Alberto. Porque não vais tu à missa? É a tua última tarefa.
- Não se soluciona uma vida como se soluciona uma doença. Toda a verdade para a vida é uma criação: ninguém a pode ensinar. E, se a ensina e aprendemos, não damos conta disso, é ainda uma criação.
- Um pouco assim. Já to disse há pouco. Em todo o caso, os apóstolos existem.
- Como as trelas dos cães. Ou como a luz num quarto escuro; o que estava no quarto não se emendou.
- Talvez, talvez - condescendeu Tomás. - Eu sou um pobre lavrador. Não tenho um stock de ideias para estas ocasiões. Mas creio que estás enganado sobre a experiência de mim próprio. Na verdade, nada disseste ainda que eu ignorasse. Às vezes ponho-me a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um «milagre», como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de mim há a vida e que a vida não morre. Sim, raras vezes vejo isso flagrantemente. Mas quando o vejo não fico cego. Abala-me um pouco, mas acabo por ficar calmo e aceitar. A morte então toma a velha imagem do sono - do sono que se apetece ao fim de um dia de trabalho.
Aparição
Vergílio Ferreira
Bertrand, 16ª edição, 1983
- Pobre Alberto. Porque não vais tu à missa? É a tua última tarefa.
- Não se soluciona uma vida como se soluciona uma doença. Toda a verdade para a vida é uma criação: ninguém a pode ensinar. E, se a ensina e aprendemos, não damos conta disso, é ainda uma criação.
- Um pouco assim. Já to disse há pouco. Em todo o caso, os apóstolos existem.
- Como as trelas dos cães. Ou como a luz num quarto escuro; o que estava no quarto não se emendou.
- Talvez, talvez - condescendeu Tomás. - Eu sou um pobre lavrador. Não tenho um stock de ideias para estas ocasiões. Mas creio que estás enganado sobre a experiência de mim próprio. Na verdade, nada disseste ainda que eu ignorasse. Às vezes ponho-me a pensar no caso dos meus filhos. Eles são seres independentes, sentem-se a si próprios sem ligações com nada, como nós nos sentimos em relação aos nossos pais. Ainda que se pareçam connosco, que tenham os nossos tiques, eles não o sabem, não o entendem. Mas eu vejo-os de mim para eles e sinto que alguma coisa de mim está neles, que alguma coisa me pertence. A minha vida é única, é um «milagre», como tu dizes. O nada absoluto da morte atordoa. Mas eu sei que para além de mim há a vida e que a vida não morre. Sim, raras vezes vejo isso flagrantemente. Mas quando o vejo não fico cego. Abala-me um pouco, mas acabo por ficar calmo e aceitar. A morte então toma a velha imagem do sono - do sono que se apetece ao fim de um dia de trabalho.
Aparição
Vergílio Ferreira
Bertrand, 16ª edição, 1983
