terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Os pinheiros de Fontanelas

2 Maio [1980] (sexta). Estamos em Fontanelas e chove. Os pinheiros têm uma face molhada, do lado donde vem a chuva, a rama escorre aguaceiro. Vem o vento de vez em quando, sente-se que vem de longe, balanceia toda a mata em revoadas de augúrio, vai morrer lá adiante noutras matas que o esperam. O fogão da sala está aceso, à luz morta do escritório escrevo a melancolia da hora. Chove mais. Os pinheiros afogam-se nas massas de água que passam, o vento cresce com o seu assombro, até a um limite de pânico. Depois abranda, a água cai mais serena. É a altura de as memórias acudirem em turbilhão, cercarem-me de vozes para o meu cismar.

Conta-Corrente 3
Vergílio Ferreira
Bertrand, 1983

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