Nos vinte anos da morte de Vergílio Ferreira, a Câmara de Évora anuncia que vai reeditar o roteiro turístico e pedagógico dos locais de «Aparição». A autarquia diz que ainda no mês de Março deverão estar prontos para distribuição «nas escolas, no Posto de Turismo e unidades hoteleiras». Vergílio Ferreira foi viver para Évora em 1945, leccionou no antigo Liceu Nacional, hoje pertença da Universidade, casou em Évora com Regina Kasprzykowski e foi naquela cidade que escreveu diversas obras, entre elas o romance «Aparição».
Na Universidade de Évora, decorre actualmente um Congresso Internacional de cariz interdisciplinar. Trata-se de «Vergílio Ferreira: entre o silêncio e a palavra total» que pretende ser uma grande oportunidade de congregar investigadores de várias áreas do saber em torno de Vergílio Ferreira. A par disto, no mesmo local, há uma exposição sobre a relação do autor com a cidade, há cinema com a reposição de películas de Lauro António e dia 1 de Março é dia de entrega do Prémio Vergílio Ferreira ao escritor João de Melo.
Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. Nos meus membros espessos, no crânio embrutecido, trago ainda o peso de uma noite de viagem. Um moço de fretes abeirou-se de mim, ergue a pala do boné:
– É preciso alguma coisa, senhor engenheiro?
Dou-lhe as malas, digo-lhe que há ainda um caixote de livros a desembarcar.
– Então é dar-me a senhazinha, senhor engenheiro.
– Mas não me trate por engenheiro. Sou professor do Liceu.
Com passinhos curtos, anda dobrado, como se tivesse dores de bexiga. A cara e os olhos, são vermelhos, ensopados em sangue. Carrega tudo aos ombros com uma complicação de cordéis, prometem-me uma pensão muito boa, mesmo na Praça, "que é já ali", e convida-me a segui-lo com os seus olhos lastimosos de aguardente. Está uma manhã bonita, com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos. À minha frente, o moço de fretes, agachado sobre si, vai dançando um estranho ritmo de arame, com os seus passos saltitados. Mal o olho. Trago em mim um pesadelo de ideias, um cansaço profundo que me alaga, me submerge. A Praça ainda é longe, e não "já ali", como me garantira o moço. Mas a angústia que me habita, a violenta redescoberta da morte, que eu acabo de fazer, tornam-me estranho nesta cidade branca, separaram-ma dos meus olhos vazios. Venho de luto. O meu pai morreu. Que têm que fazer, em face da minha dor, da minha alucinação, estas árvores matinais da avenida que percorro, a branca aparição desta cidade-ermida?
– Estamos quase, senhor engenheiro.
Aparição
Vergílio Ferreira
Portugália Editora, 1959.
Na Universidade de Évora, decorre actualmente um Congresso Internacional de cariz interdisciplinar. Trata-se de «Vergílio Ferreira: entre o silêncio e a palavra total» que pretende ser uma grande oportunidade de congregar investigadores de várias áreas do saber em torno de Vergílio Ferreira. A par disto, no mesmo local, há uma exposição sobre a relação do autor com a cidade, há cinema com a reposição de películas de Lauro António e dia 1 de Março é dia de entrega do Prémio Vergílio Ferreira ao escritor João de Melo.
Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora. Nos meus membros espessos, no crânio embrutecido, trago ainda o peso de uma noite de viagem. Um moço de fretes abeirou-se de mim, ergue a pala do boné:
– É preciso alguma coisa, senhor engenheiro?
Dou-lhe as malas, digo-lhe que há ainda um caixote de livros a desembarcar.
– Então é dar-me a senhazinha, senhor engenheiro.
– Mas não me trate por engenheiro. Sou professor do Liceu.
Com passinhos curtos, anda dobrado, como se tivesse dores de bexiga. A cara e os olhos, são vermelhos, ensopados em sangue. Carrega tudo aos ombros com uma complicação de cordéis, prometem-me uma pensão muito boa, mesmo na Praça, "que é já ali", e convida-me a segui-lo com os seus olhos lastimosos de aguardente. Está uma manhã bonita, com um sol íntimo dourando o ar, um vento leve da planície, fresco de orvalhos. À minha frente, o moço de fretes, agachado sobre si, vai dançando um estranho ritmo de arame, com os seus passos saltitados. Mal o olho. Trago em mim um pesadelo de ideias, um cansaço profundo que me alaga, me submerge. A Praça ainda é longe, e não "já ali", como me garantira o moço. Mas a angústia que me habita, a violenta redescoberta da morte, que eu acabo de fazer, tornam-me estranho nesta cidade branca, separaram-ma dos meus olhos vazios. Venho de luto. O meu pai morreu. Que têm que fazer, em face da minha dor, da minha alucinação, estas árvores matinais da avenida que percorro, a branca aparição desta cidade-ermida?
– Estamos quase, senhor engenheiro.
Aparição
Vergílio Ferreira
Portugália Editora, 1959.
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