sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O desastre

22-Janeiro [1985] (terça). Tantas vezes tenho pensado que a minha vida foi um desastre. Mas raramente me pergunto o que seria de mim, se a vida tivesse sido outra. Em que medida o que falhou não produziu o útil que fui. Quer seria eu se não fosse eu. Em que é que o eu que sou não é o que falhei. Em que é que isso não faz parte da minha integridade. Que literatura teria feito, se não fora assim. Em que medida, se a vida não fosse um desastre, não seria um desastre o que nela faria. Etc. Pergunto-me agora para um pouco de reconforto. Nós somos decerto talhados com defeitos e virtudes para a harmonia do que viermos a ser. Como o Er, o panfílio de Platão, escolhi-me desde toda a eternidade. Não há pois que queixar-me senão de mim. Mas decerto quando me escolhi, escolhi-me o melhor que podia ser. Assim seja. E que a paz desça sobre a minha inquietação.

Conta-corrente 5
Vergílio Ferreira
Bertrand, 1987